A 15 de Setembro de 1976, o fotógrafo Josef Sudek morreu com 80 anos e nasceu Josef Sudek, que haveria de morrer com 26 anos, trazido ao mundo por uma parteira com mãos grandes e tenazes como fórceps.
Filho de um encadernador - uma profissão que o fotógrafo também exerceu como aprendiz antes de ser incorporado no exército para combater na frente italiana da Grande Guerra, onde foi ferido e lhe foi amputado o braço direito, uma infeliz circunstância que o impediu de continuar a sua incipiente carreira de encadernador e o empurrou para a fotografia - e de uma professora de música, Josef cedo revelou inclinação para os espelhos e para os lápis de grafite.
O seu primeiro auto-retrato, grafite sobre papel, data de 1989 e mostra-o de perfil, mirando-se claramente num espelho enquanto desenha a sua silhueta aparentada à de uma ave, de nariz pontiagudo e pequenos olhos encovados. Os anos seguintes haveriam de assistir a uma febril produção de auto-representações que o mostravam em várias poses e vestido das mais diversas maneiras - como janissário, como eremita, como Rembrandt, como o valente soldado Schveik, como Jan Huss, como Oblomov, de camisa de dormir, como maestro, etc mas curiosamente nunca se representando como o outro Josef Sudek - e que, face à inexistência de outro tipo de trabalhos no portfolio do agora célebre desenhador, faz lembrar a frase do diarista francês Paul Léautaud: Une seule chose m'intéresse: moi.
Apesar dessa fixação narcísica no seu próprio reflexo, Josef era descrito por aqueles que com ele privaram como alguém que parecia desprovido de qualquer forma de egoísmo ou de egocentrismo, sendo antes considerado um companheiro fiável e discreto, generoso com os que lhe eram queridos e pouco dado à auto-mitificação.
No entanto, pesem o que pesam essas características, a realidade é que a totalidade do seu trabalho - 256 desenhos a lápis, todos datados e assinados, conservados numa grande pasta de cabedal e recuperados pela sua mãe da casa familiar, assolada pelas cheias de 2002 - é composta por auto-retratos, logo por um foco total no seu rosto o que talvez tenha proporcionado que, a partir de determinada altura, o conhecesse tão bem que se lhe tornava desnecessário recorrer ao espelho.
Todo este corpus de trabalho, exposto pela primeira vez em 2007 na Staromestská radnice, o antigo edifício da Câmara de Praga, como parte de um programa de homenagem às vítimas das cheias de há cinco anos, permaneceu desconhecido do público durante a breve vida de Josef - um autodidacta que não frequentava os círculos artísiticos e a quem não se conhecem sequer grandes interesses intelectuais - e só a intervenção da sua mãe permitiu que a obra viesse a ser exposta, comentada e finalmente reconhecida como uma das mais originais contribuições de um artista checo para a história do desenho do século XX.
Quanto ao malogrado Josef, caiu às águas do enfurecido Vltava e a elas sucumbiu, sem deixar outro rasto que a imagem do seu rosto.
Para que conste, não se sabe do nascimento de nenhum outro Josef Sudek a 14 de Agosto de 2002, data da morte do segundo Josef Sudek.
