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Adieu et pour toujours au personnel, à l'intime, au relatif. - Gustave Flaubert, Cahier Intime, 1853 -

sexta-feira, 9 de Outubro de 2009

O outro Josef Sudek

A 15 de Setembro de 1976, o fotógrafo Josef Sudek morreu com 80 anos e nasceu Josef Sudek, que haveria de morrer com 26 anos, trazido ao mundo por uma parteira com mãos grandes e tenazes como fórceps.
Filho de um encadernador - uma profissão que o fotógrafo também exerceu como aprendiz antes de ser incorporado no exército para combater na frente italiana da Grande Guerra, onde foi ferido e lhe foi amputado o braço direito, uma infeliz circunstância que o impediu de continuar a sua incipiente carreira de encadernador e o empurrou para a fotografia - e de uma professora de música, Josef cedo revelou inclinação para os espelhos e para os lápis de grafite.
O seu primeiro auto-retrato, grafite sobre papel, data de 1989 e mostra-o de perfil, mirando-se claramente num espelho enquanto desenha a sua silhueta aparentada à de uma ave, de nariz pontiagudo e pequenos olhos encovados. Os anos seguintes haveriam de assistir a uma febril produção de auto-representações que o mostravam em várias poses e vestido das mais diversas maneiras - como janissário, como eremita, como Rembrandt, como o valente soldado Schveik, como Jan Huss, como Oblomov, de camisa de dormir, como maestro, etc mas curiosamente nunca se representando como o outro Josef Sudek - e que, face à inexistência de outro tipo de trabalhos no portfolio do agora célebre desenhador, faz lembrar a frase do diarista francês Paul Léautaud: Une seule chose m'intéresse: moi.
Apesar dessa fixação narcísica no seu próprio reflexo, Josef era descrito por aqueles que com ele privaram como alguém que parecia desprovido de qualquer forma de egoísmo ou de egocentrismo, sendo antes considerado um companheiro fiável e discreto, generoso com os que lhe eram queridos e pouco dado à auto-mitificação.
No entanto, pesem o que pesam essas características, a realidade é que a totalidade do seu trabalho - 256 desenhos a lápis, todos datados e assinados, conservados numa grande pasta de cabedal e recuperados pela sua mãe da casa familiar, assolada pelas cheias de 2002 - é composta por auto-retratos, logo por um foco total no seu rosto o que talvez tenha proporcionado que, a partir de determinada altura, o conhecesse tão bem que se lhe tornava desnecessário recorrer ao espelho.
Todo este corpus de trabalho, exposto pela primeira vez em 2007 na Staromestská radnice, o antigo edifício da Câmara de Praga, como parte de um programa de homenagem às vítimas das cheias de há cinco anos, permaneceu desconhecido do público durante a breve vida de Josef - um autodidacta que não frequentava os círculos artísiticos e a quem não se conhecem sequer grandes interesses intelectuais - e só a intervenção da sua mãe permitiu que a obra viesse a ser exposta, comentada e finalmente reconhecida como uma das mais originais contribuições de um artista checo para a história do desenho do século XX.
Quanto ao malogrado Josef, caiu às águas do enfurecido Vltava e a elas sucumbiu, sem deixar outro rasto que a imagem do seu rosto.
Para que conste, não se sabe do nascimento de nenhum outro Josef Sudek a 14 de Agosto de 2002, data da morte do segundo Josef Sudek.

sábado, 19 de Setembro de 2009

Annemarie Gulyás, de chapéu branco

A única fotografa que se lhe conhece mostra-a na esplanada do histórico Café Bodó, em Budapeste, na companhia da mãe e sob o olhar atento de um empregado de fraque e papillon, cabelo à Valentino, puxado para trás com recurso à brilhantina.
Ambas as mulheres usam chapéus brancos e a jovem Annemarie, de vestido florido, parece suspensa de uma qualquer história que a mãe lhe conta, de olhos perdidos no horizonte, como se buscasse na sua memória o contorno exacto de determinado detalhe.
A fotografia não está datada mas poder-se-ia, sem grande hesitação, situá-la no período entre as duas guerras, época de florescimento da indústria conserveira de Ferenc Gulyás, pai de Annemarie, ausente do retrato como tantas vezes se encontrava ausente da casa familiar.
O antes e o depois desta fotografia estão perdidos para nós, irrecuperáveis por igual os rostos anteriores e tardios da trágica Annemarie Gulyás, educada como uma senhora, treinada como cantora lírica e, no entanto, naturalmente inábil para qualquer destes papéis, mais inclinada ao lumpen e à opereta.
Numa húmida manhã de 1942, apareceu morta em frente ao Rókus Hospital, envolta num cobertor. Fora baleada no rosto e só foi possível identificá-la através dos registos dentários.
Do seu último amante, um empregado de café por certo não muito diferente daquele que a observa na sua única fotografia conhecida, nunca se encontrou o paradeiro.

quinta-feira, 3 de Setembro de 2009

Karel Podgorny, pirómano

Do famigerado Dicionário de Termos Autobiográficos que Podgorny foi escrevendo ao sabor das neurastenias durante toda a sua vida sobrou apenas um pequeno fragmento chamuscado - o incêndio da casa de Praga foi rápido e devastador, vitimando por igual autor e obra - intitulado Vontade e cujo texto remanescente reza assim: Não tenho vontade alguma excepto aquela que me é induzida pela luxúria.

terça-feira, 23 de Junho de 2009

Charles Spencer, coleccionador

Por altura da página 476 da sua insólita auto-biografia (1) Charles Spencer, bibliófilo e misantropo, narra-nos o momento em que finalmente teve entre as mãos o objecto maior dos seus sonhos de coleccionador, uma página da Bíblia de Gutenberg, objecto esse cuja demanda o levou a desbaratar parte considerável da sua fortuna (2) e as suas poucas relações de amizade.
Reza assim:
"Sentei-me no meu estúdio, sozinho, e rasguei o invólucro que cobria o meu tesouro. Ergui a página, como se me preparasse para a leitura de um édito ou como se me aprestasse a salmodiar a uma plateia, e à medida que os meus dedos se familiarizavam com a textura da página senti como que um desfalecimento da vontade, um crescente descontentamento com a forma como até aí me dedicara a conduzir a minha vida. Senti, como dizem outros mais ilustres que eu, o vazio da posse, a extinção do fogo que me animara e a certeza de que nesta empresa desperdiçara o melhor das minhas forças e dos meus recursos e que daí em diante nada mais me restava senão uma longa espera pela morte."
O destino revelou-se misericordioso e a espera mais curta do que se poderia crer. A 12 de Dezembro de 1963, uns magros quatro anos depois da obtenção do seu tesouro, Charles Spencer, de sessenta e sete anos de idade, foi fulminado por um ataque cardíaco durante o sono. A sua página da Bíblia de Gutenberg acabou nas mãos do British Museum e o seu nome não é mencionado com frequência.
(1) How I got my piece of the Gutenberg Bible and at what cost, 503 páginas, 1961, Victor Gollancz
(2) Herdada do labor do pai, o industrioso empresário têxtil William Spencer

segunda-feira, 22 de Junho de 2009

António Maria d'Ornellas

"No terreiro das superstições locais não se divisa a mínima centelha do Divino mas antes um intenso comércio com o negrume pestilento em que habita o Outro. Que estas cerimónias sejam levadas a cabo a coberto do manto nocturno não é uma coincidência nem, como dizem alguns, uma defesa dos praticantes contra a legítima curiosidade das autoridades mas tão só um estratagema para obter uma maior proximidade ao Adversário, mais acessível a essas horas avançadas da noite do que à luz do Sol. Quantos braços não tive que torcer, quantas ameaças não assomaram aos meus lábios, quanto esforço de violência não tive eu que dispender para obter acesso a esses círculos? E com que frémito de cristalina fúria assisti, do meu esconderijo, ao debochado espectáculo dos corpos negros retorcendo-se, nus sob o luar, os torsos untados com o sangue fresco de animais sacrificados à boca voraz do Tinhoso! Participavam não só os homens mas também as mulheres!
Certa vez, em pleno dia, vi um mulato, embriagado com esse vinho barato com que os brancos empanturam os negros, que se babava e tremia, de pé no centro de um círculo que ele mesmo desenhara na calçada com essa zurrapa escarlate. Escorria-lhe a baba pelo queixo e pingava para o peito nu, as calças brancas rasgadas e enegrecidas de sujidade, como se se tivesse arrastado pelo chão, e balbuciava uma invocação ao seu mestre peçonhento, aterrorizando as mulheres e as crianças e petrificando o fraco coração dos homens. Apenas eu, apesar de possuído pelo mais profundo terror, considerei meu dever apear-me do cavalo e chicoteá-lo com mão tremente, sem piedade e sem descanso até o ter aos meus pés, arrastando-se para fora do círculo e de mãos postas no couro da biqueira da minha bota, implorando piedade na sua voz entaramelada, enquanto eu continuava a chicoteá-lo, certo de que se tivesse uma arma, de fogo ou de fio, o teria estendido ali mesmo e dessa forma posto um fim à sua triste existência."
Eis um excerto da correspondência de António Maria d'Ornellas, vice-cônsul da Coroa portuguesa em São Salvador da Bahia entre 1841 e 1846, ano de que data a missiva de onde se extraiu esta passagem e o mesmo ano em que o vice-cônsul se viu prostrado numa cama, acometido por uma estranha doença que nenhum dos clínicos locais soube diagnosticar e contra a qual não se encontraram eficazes medidas terapêuticas. Optou-se então por fazê-lo regressar a Lisboa, a bordo do Santa Luzia e foi nesta embarcação que veio a falecer, por entre violentas hemorragias e sem que quaquer um dos tripulantes do navio, médico incluído, se atrevesse a aproximar-se dele, tamanho terror lhes inspirava a quantidade de sangue expelida pelo doente, os seus gritos e o pavor geral do contágio.
Foi sepultado no mar, ao largo da ilha da Madeira, sem que se proferisse qualquer oração e a coberto da noite.

quarta-feira, 20 de Maio de 2009

Alvaro Bonaparte

O falecimento do octagenário escritor boliviano Alvaro Bonaparte, discípulo inesperado de Frank Herbert e Robert A. Heinlein, passou despercebido. A própria imprensa boliviana resolveu a questão - delicada - com grande discrição, publicando apenas uma breve nota de obituário na qual somente se referia o seu papel pioneiro como impulsionador da ficção científica nacional e se ignoravam outros aspectos, mais tenebrosos, da relação de Bonaparte com o seu país, em particular no que se refere à sua importância no estabelecimento das fundações míticas da ditadura de Hugo Banzer Suárez e do seu papel de cultor da delação como arte ficcional, um papel no qual se distinguiu como exímio proselítico, líder não ostensivo de uma feroz matilha de cães de fila que, entre 1971 e 1978, se especializou em mostrar os caninos do regime a quaquer voz discordante, real ou - especialmente - imaginada.
Da literatura de Bonaparte, pouco haverá a dizer. O seu amor pela ficção científica norte-americana dos anos 60 está bem patente na sua novela mais conhecida (Las Banderas de los Condenados, editada em 1972, um ano depois do golpe militar que colocou Banzer Suárez à frente dos destinos da Bolívia) a qual, na sua aparente originalidade, mais não é do que um hábil pastiche do messianismo de "Dune"(1) e da apologia militarista de "Starship Troopers"(2). Nesse livro, narra-se a história de uma república futurista, situada à conveniente altitude de 4.000 metros (3), ameaçada por uma inssurreição de feição libertária - e que hoje designaríamos como guerrilha de libertação, não tão diferente de algumas que deflagravam à época, de inspiração socialista - liderada por um profeta aparentado com Marat - do qual herda a face simiesca e a repugnante dermatitis herpetiformis - e secundada por um exército desgarrado de miseráveis e oportunistas, oriundos dos planaltos fronteiros à altaneira república. Para combatê-los, a "digna e santa ditadura"(4) possui as suas próprias armas, mais dignas e santas do que as desse exército, homens de bem, verdadeiros patriotas dotados da imensa vantagem de conseguir perscrutar o futuro. Será esse grupo de homens que, equipado com uma versão atmosférica dos stillsuits usados pelos Fremen de "Dune", deverá descer até aos planaltos e aí confrontar a turba, armados apenas com as suas habilidades de vidência - de origem não explicitada mas que se supõe ser de responsabilidade divina - e com uma inteligência superior.
O estilo, se assim se lhe pode chamar, é balofo e a transcendência dos diálogos entre os heróis - não individualizados e nunca nomeados, como se representassem todo o povo boliviano - roça o confrangedor. O profeta louco, líder da multidão, acaba assassinado na banheira, como Marat, pelo fio da lâmina de uma jovem - Carlota, transparente fac-símile de Charlotte Corday - libertada do fanatismo e do obscurantismo pelas palavras sábias de um dos santos guerreiros.
Em 1978, após a queda de Banzer Suárez - que chegou a referir, numa entrevista, a sua predilecção pela obra de Bonaparte, "primeiro entre os intelectuais do nosso país" (5) - o escritor tomou refúgio no Uruguai, sob nome suposto, e daí partiu para Genebra, onde expirou na tranquilidade dos seus oitenta e três anos, não sem antes voltar a pilhar a obra de outro para lhe servir de obituário, que aqui se transcreve como derradeiro desvendar do falso génio de La Paz:
"Atravessou regiões tão tórridas que sob o calor do Sol os cabelos se incendiavam por si sós como tochas; e outras que era tão glaciais que os braços, separando-se do corpo, caíam ao chão; e países onde havia tanto nevoeiro que se caminhava rodeado de fantasmas." (6)
(1) Frank Herbert, 1965
(2) Robert A. Heinlein, 1959
(3) La Paz, capital da Bolívia, situa-se a 3.660 metros de altitude
(4) Las Banderas de los Condenados, pág. 35
(5) Hugo Banzer Suárez, entrevista ao jornal ADN (órgão oficial do partido ADN - Acción Democrática- Nacionalista), Junho de 1974
(6) Gustave Flaubert, La Légende de saint Julien, l' Hospitalier, 1876

sábado, 25 de Abril de 2009

Antonio Salina, sem máscaras

O mais público dos homens pode ter - e muitas vezes tem - a mais secreta das vidas.
Antonio Salina, o popular fotógrafo andaluz cujas imagens povoaram o imaginário espanhol durante quase duas décadas, pareceria à partida uma excepção à regra enunciada acima. O seu trabalho - reproduzido até à exaustão em postais, calendários, capas de cadernos, lancheiras, malas de senhora e t-shirts - decalcado da sua vida familiar, um exemplo de pública harmonia, consistiu sempre numa forma quase diarística - mas prenhe de pudores - de exposição dessa mesma familiar, em particular daquilo que se referia ao desenvolvimento e ternas tropelias dos seus cinco filhos. Cresceram os cinco sob o escrutínio do público, sem as neuroses da família Glass (1), acarinhados e invejados por pais de todas as classes sociais, incapazes de compreender por que razão não se desenvolviam os seus próprios filhos de forma similar à dos pequenos Salina.
Por diversas razões, a crítica nunca lhe permitiu integrar as diversas colecções de fotografia, públicas ou privadas, que pululam em Espanha. O grande óbice, dizem os cínicos, - que se sabe desde Diógenes serem os únicos que falam verdade - foi a sua popularidade. Que Warhol, post mortem, surja em todos os formatos, de canecas a estojos escolares, é aceite como consequência de um bom trabalho de divulgação e de educação das massas. Que as fotografias deste homem "calvo, de olhos piscos e silhueta rubicunda" - como o definiu César Sanchéz, amigo pessoal de Salina e biógrafo, (pouco oficial, como adiante se verá) autor do tomo "El poeta de la sonrisa", editado ainda em vida do fotógrafo, em 2006 - entrassem em alguma das colecções de fotografia contemporânea seria, sem exageros, um ultraje.
Dois anos volvidos sobre a morte de Salina - um ataque cardíaco, enquanto conduzia, com três dos seus filhos no automóvel, os quais saíram ilesos do despiste, sem cicatrizes dignas de serem fotografadas - uma edição da casa sevilhana Fotografia & Cia. promete levar a uma reavaliação do trabalho do afável fotógrafo e, por inerência, da própria psique da sua massa de consumidores. A edição, projectada para três volumes, verá a luz antes do Verão de 2009 e terá como título La máscara.
De que máscara se trata? A resposta é simples: do rosto de Salina cai a máscara de afabilidade e de bonomia, do rosto da sua família tomba a máscara da harmonia e dos seus atónitos espectadores tombará sem demora a máscara sorridente e tranquila.
Segundo Roberto Ruggeri, argentino radicado em Sevilha, proprietário da casa editorial já citada e amigo pessoal de Salina, "esta edição, conforme verá a luz do dia, foi pensada e executada por ele, sem qualquer intervenção externa e sem que ninguém dela tivesse conhecimento. Eu, que suponho ter sido o primeiro a vê-la, na sequência da execução de uma disposição do testamento de Antonio, fiquei a princípio muito chocado e confuso. No entanto, decidi seguir os desejos dele e iniciar a preparação da publicação. Não ganharei muitos amigos mas não poderia defraudar a memória de Antonio."
O que terão de tão chocante estes três volumes para que a família de Salina tenha tentado interditar a sua publicação, apelando até à memória da falecida esposa do fotógrafo? Nestas páginas, o artista revela-se de corpo inteiro, escrevendo na primeira pessoa sobre a sua vida, a sua família e o seu trabalho, complementando as suas reminiscências com fotografias inéditas, cujo teor se afasta, e muito, do seu trabalho já conhecido. Fala da morte da mulher- cancro, em 1987 -, de como a substituiu pelos filhos, mantendo com todos eles relações sexuais, como se de um harém se tratasse, enquanto durante anos se lhe louvaram as paternais capacidades . Fala do seu trabalho, do horror profundo que lhe inspiravam essas fotografias falsas, como testemunhas de uma vida falsa, toda essa falsidade deslizando como néctar de ambrósia pelas incautas gargantas da massa de compatriotas que o viam como modelo e juravam sobre a veracidade da felicidade que viam representada nas suas fotografias.
Fala de tudo mas não fala de máscaras.
Mas é a elas que recorre, máscaras de dor e de nojo, pintadas à mão - a sua mão - sobre cópias de algumas das suas fotografias mais populares, distorcendo a interpretação habitual sobre essas imagens e elevando-as, à força de abjecção, a um novo patamar.
(1) Ver J.D. Salinger (por exemplo, Franny and Zooey)